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Espaço ciência
Piercing lingual

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Edição Jan/Fev/Mar - 2002
Impacto do uso na prevalência da recessão gengival lingual e desgaste dental
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O uso de piercing no corpo é uma prática proveniente dos povos que viviam na antigüidade1. Mais tarde, este costume tornou-se mais popular, especialmente entre os adolescentes e jovens de países industrializados, por diferentes razões, como práticas religiosas ou cerimoniais2-4. Em 1999, uma avaliação com 391 estudantes americanos usuários de piercing mostrou que os dois principais motivos que levaram estes estudantes ao uso de piercing estavam relacionados a uma forma própria de expressão (48%) ou apenas porque desejavam usá-los (38%)2-4. Sessenta e três por cento colocaram piercing entre 18 e 22 anos, esta idade de usarem piercing variou entre 11 e 42 anos de idade. Somente 30% dos estudantes relataram não apresentar problemas com o uso. Setenta por cento, por sua vez, relataram várias complicações, como infecções localizadas e irritação da pele, e 2 estudantes afirmaram ter contraído hepatite4. Complicações infecciosas e não infecciosas pelo corpo foram descritas previamente por Tweeten & Rickman (1998)5.

As formas mais comuns de uso do piercing oral são nos lábios, língua e bochechas. Raramente sua instalação é feita em outros locais da cavidade bucal, como a úvula6. Piercing oral foi, e ainda é, parte de rituais de várias civilizações1,79 e tem se tornado popular entre adolescentes e jovens em países industrializados2,3. A língua é o local mais prevalente para a instalação de piercing na cavidade bucal, sendo a sua colocação preferencialmente feita na linha mediana da língua ou no freio lingual. Desde 1992, diversos relatos clínicos têm demonstrado complicações dentais, orais e sistêmicas provenientes do uso lingual de piercing. Estas complicações podem ser categorizadas como agudas ou crônicas. Algumas das complicações agudas são inchaço ou dor10-15, dificuldade na mastigação, deglutição e fonação14,16,17, enquanto outras complicações como aumento no fluxo salivar12,13,16,18, presença de corrente galvânica entre o piercing e restaurações metálicas18, infecções severas13 e hemorragias prolongadas19, parecem ser raras. Complicações crônicas incluem desgaste ou fraturas dentais12,16-18, trauma gengival12-18, crescimento gengival localizado12,20, funções orais comprometidas10,16 e deglutição parcial ou total do próprio piercing6,11,18. Apesar destes numerosos relatos, poucos estudos clínicos foram conduzidos até o presente, com o propósito de avaliar as complicações do uso de piercing lingual sobre os dentes e gengiva. Além disso, nenhum estudo avaliou clinicamente a prevalência das complicações orais ou dentais do uso de piercing lingual em uma população proveniente de uma comunidade estudantil.

O objetivo do presente estudo foi avaliar clinicamente a prevalência de complicações do uso de piercing lingual em uma população de estudantes que não estavam sob tratamento odontológico regular. Além disto, este estudo determinou ainda se o tempo de uso (em anos) de piercing lingual em forma de “halteres” interferiu com a prevalência de recessão gengival lingual em dentes anteriores e na prevalência de desgaste dental.

Materiais e métodos

Cinqüenta e dois adultos jovens (31 homens e 21 mulheres) com média de idade de 22 anos (mediana 21; intervalo de idade de 18-40) participaram do estudo. Todos os indivíduos assinaram termo de consentimento livre e esclarecido. Os indivíduos foram recrutados de três locais públicos onde se colocavam piercing e dois shopping centers. Os indivíduos foram incluídos no estudo segundo os seguintes critérios:

1) presença de piercing lingual;

2) concordância em participar do estudo;

3) capacidade de responder ao questionário próprio. O protocolo do estudo foi aprovado pelo Institutional Review Board of Loma Linda University.

O estudo envolveu o preenchimento de questionário e exame clínico. Os indivíduos incluídos no estudo foram aconselhados a trocar o tipo de piercing metálico por outro em acrílico, para prevenir o desgaste dental21.

Questionário

Os participantes foram instruídos a responder as questões referentes à idade, gênero, tempo de uso e tamanho do piercing. A verificação de dentes com desgaste, quando da realização do exame clínico, e informações adicionais eram requisitadas dos indivíduos quanto as possíveis causas e circunstâncias do acontecimento.

Exame clínico e registros

Todos os exames foram submetidos no próprio local utilizando-se luz em equipamento portátil, espelho clínico e sonda periodontal. Concordância entre dois examinadores foi realizada para todos os registros. Estes registros incluíram a presença ou ausência de recessão gengival vestibular ou lingual de todos os dentes anteriores; desgaste em todos os dentes presentes; presença de piercing labial ou outro qualquer adicionalmente ao piercing lingual. A profundidade de recessão gengival foi avaliada em milímetros usando-se sonda periodontal UNC-15, na face mésio-vestibular ou mésio-lingual dos dentes com recessão gengival.

Avaliação dos dados e análise estatística

Estatísticas descritivas estão expressas como médias ± desvio-padrão (DP). Resultados das variáveis por indivíduo foram analisadas em relação à presença ou ausência de recessão gengival e desgaste dental (porcentagem de indivíduos positivos), número de recessão gengival, profundidade média de recessão gengival e número de dentes com desgaste. Variáveis independentes avaliaram o tempo de uso e o tamanho do piercing. Em algumas análises, a idade dos indivíduos foi utilizada como variáveis independentes. Indivíduos foram divididos em três grupos de acordo com tempo de uso: de zero a menos que dois anos (0 - 2), dois a menos que quatro anos (2 - 4) e quatro anos ou mais (4+). Indivíduos foram também divididos em dois grupos de acordo com o tamanho do piercing: curto (< 1,59 cm) e longo (3 1,59 cm). Esta caracterização do tamanho foi baseada na média do tamanho dos piercings comercializados. A diferença na prevalência entre os grupos foi analisada por testes binominais. Testes não paramétricos (Kruskal-Wallis, Mann-Whitney U) foram utilizados para testar as diferenças entre os grupos referentes ao número de recessão (dentes envolvidos) por indivíduo, média da profundidade de recessão e número de desgaste dental por indivíduo. O nível de significância para rejeitar a hipótese foi de 95%.


 


 

 


Prof. Dr. José Roberto
Cortelli ***