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O uso de piercing no corpo é uma prática proveniente dos
povos que viviam na antigüidade1. Mais tarde, este costume tornou-se mais popular,
especialmente entre os adolescentes e jovens de países industrializados, por
diferentes razões, como práticas religiosas ou cerimoniais2-4. Em 1999, uma
avaliação com 391 estudantes americanos usuários de piercing mostrou que os
dois principais motivos que levaram estes estudantes ao uso de piercing estavam
relacionados a uma forma própria de expressão (48%) ou apenas porque desejavam
usá-los (38%)2-4. Sessenta e três por cento colocaram piercing entre 18 e 22 anos,
esta idade de usarem piercing variou entre 11 e 42 anos de idade. Somente 30%
dos estudantes relataram não apresentar problemas com o uso. Setenta por cento,
por sua vez, relataram várias complicações, como infecções localizadas e irritação
da pele, e 2 estudantes afirmaram ter contraído hepatite4. Complicações infecciosas
e não infecciosas pelo corpo foram descritas previamente por Tweeten & Rickman
(1998)5. As formas mais comuns de uso do piercing oral são nos
lábios, língua e bochechas. Raramente sua instalação é feita em outros locais
da cavidade bucal, como a úvula6. Piercing oral foi, e ainda é, parte de rituais
de várias civilizações1,79 e tem se tornado popular entre adolescentes e jovens
em países industrializados2,3. A língua é o local mais prevalente para a instalação
de piercing na cavidade bucal, sendo a sua colocação preferencialmente feita
na linha mediana da língua ou no freio lingual. Desde 1992, diversos relatos
clínicos têm demonstrado complicações dentais, orais e sistêmicas provenientes
do uso lingual de piercing. Estas complicações podem ser categorizadas como
agudas ou crônicas. Algumas das complicações agudas são inchaço ou dor10-15,
dificuldade na mastigação, deglutição e fonação14,16,17, enquanto outras complicações
como aumento no fluxo salivar12,13,16,18, presença de corrente galvânica entre
o piercing e restaurações metálicas18, infecções severas13 e hemorragias prolongadas19,
parecem ser raras. Complicações crônicas incluem desgaste ou fraturas dentais12,16-18,
trauma gengival12-18, crescimento gengival localizado12,20, funções orais comprometidas10,16
e deglutição parcial ou total do próprio piercing6,11,18. Apesar destes numerosos
relatos, poucos estudos clínicos foram conduzidos até o presente, com o propósito
de avaliar as complicações do uso de piercing lingual sobre os dentes e gengiva.
Além disso, nenhum estudo avaliou clinicamente a prevalência das complicações
orais ou dentais do uso de piercing lingual em uma população proveniente de
uma comunidade estudantil. O objetivo do presente estudo foi avaliar clinicamente
a prevalência de complicações do uso de piercing lingual em uma população de
estudantes que não estavam sob tratamento odontológico regular. Além disto,
este estudo determinou ainda se o tempo de uso (em anos) de piercing lingual
em forma de “halteres” interferiu com a prevalência de recessão gengival lingual
em dentes anteriores e na prevalência de desgaste dental. Materiais e métodos Cinqüenta e dois adultos jovens (31 homens e 21 mulheres)
com média de idade de 22 anos (mediana 21; intervalo de idade de 18-40) participaram
do estudo. Todos os indivíduos assinaram termo de consentimento livre e esclarecido.
Os indivíduos foram recrutados de três locais públicos onde se colocavam piercing
e dois shopping centers. Os indivíduos foram incluídos no estudo segundo os
seguintes critérios: 1) presença de piercing lingual; 2) concordância em participar do estudo; 3) capacidade de responder ao questionário próprio. O protocolo
do estudo foi aprovado pelo Institutional Review Board of Loma Linda University. O estudo envolveu o preenchimento de questionário e exame
clínico. Os indivíduos incluídos no estudo foram aconselhados a trocar o tipo
de piercing metálico por outro em acrílico, para prevenir o desgaste dental21.
Questionário Os participantes foram instruídos a responder as questões
referentes à idade, gênero, tempo de uso e tamanho do piercing. A verificação
de dentes com desgaste, quando da realização do exame clínico, e informações
adicionais eram requisitadas dos indivíduos quanto as possíveis causas e circunstâncias
do acontecimento. Exame clínico e registros Todos os exames foram submetidos no próprio local utilizando-se
luz em equipamento portátil, espelho clínico e sonda periodontal. Concordância
entre dois examinadores foi realizada para todos os registros. Estes registros
incluíram a presença ou ausência de recessão gengival vestibular ou lingual
de todos os dentes anteriores; desgaste em todos os dentes presentes; presença
de piercing labial ou outro qualquer adicionalmente ao piercing lingual. A profundidade
de recessão gengival foi avaliada em milímetros usando-se sonda periodontal
UNC-15, na face mésio-vestibular ou mésio-lingual dos dentes com recessão gengival. Avaliação dos dados e análise estatística Estatísticas descritivas estão expressas como médias ±
desvio-padrão (DP). Resultados das variáveis por indivíduo foram analisadas
em relação à presença ou ausência de recessão gengival e desgaste dental (porcentagem
de indivíduos positivos), número de recessão gengival, profundidade média de
recessão gengival e número de dentes com desgaste. Variáveis independentes avaliaram
o tempo de uso e o tamanho do piercing. Em algumas análises, a idade dos indivíduos
foi utilizada como variáveis independentes. Indivíduos foram divididos em três
grupos de acordo com tempo de uso: de zero a menos que dois anos (0 - 2), dois
a menos que quatro anos (2 - 4) e quatro anos ou mais (4+). Indivíduos foram
também divididos em dois grupos de acordo com o tamanho do piercing: curto (<
1,59 cm) e longo (3 1,59 cm). Esta caracterização do tamanho foi baseada na
média do tamanho dos piercings comercializados. A diferença na prevalência entre
os grupos foi analisada por testes binominais. Testes não paramétricos (Kruskal-Wallis,
Mann-Whitney U) foram utilizados para testar as diferenças entre os grupos referentes
ao número de recessão (dentes envolvidos) por indivíduo, média da profundidade
de recessão e número de desgaste dental por indivíduo. O nível de significância
para rejeitar a hipótese foi de 95%.
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