Reportagem de capa
Entrevista com DR. CARLOS EDUARDO X. S. RIBEIRO DA
SILVA, especialista e mestre em estomatologia, professor
da disciplina semiologia/estomatologia da Unisa,
UNG e UCCB

Diretor do jornal: Dr. Walter Tom - wtom@uol.com.br

Jornalista responsável: Cristiane Pinheiro (MTB 25.696-SP) - clpinheiro@uol.com.br

Editor do WebSite: Dr. Maurício Bittencourt - mgbitt@terra.com.br

 
Edição Out/Nov/Dez-2001
 
Inter-relação odontologia e medicina (doenças infecciosas e parasitárias
por Walter Tom *
 

Dr. Carlos Eduardo Ribeiro
da Silva
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Ao atender um paciente portador de alguma doença infecciosa e parasitária, o cirurgião dentista precisa usar alguma roupa especial? Quais são as doenças que os CD´s devem estar atentos quanto ao HIV? Existe alguma precaução especial para atendimento a esses pacientes? Em relação ao HIV, se houver suspeita do profissional em após um ferimento acidental ter se contaminado, existe alguma medida profilática que possa ser tomada pelo CD? As respostas a estas e outras dúvidas podem ser encontradas na matéria de capa desta edição. Periodonto foi ouvir a opinião de especialistas médicos e dentistas e todos concordam em um ponto: o cirurgião-dentista sempre deve se preocupar em relação à biossegurança, independente de o paciente ser ou não portador de alguma doença infecciosa e/ou parasitária. Para alguns especialistas, este aviso pode parecer um pouco redundante, mas nunca é demais lembrar... Boa leitura!


Quais os cuidados de biossegurança que o cirurgião-dentista deve tomar no atendimento de seus pacientes ?

Devemos utilizar os métodos de esterilização e desinfecção, além das barreiras mecânicas de proteção.

Quais são os principais métodos de esterilização e desinfecção disponíveis?

Em relação à esterilização, pode se utilizar o calor seco (estufa), onde os materiais devem ser colocados a uma temperatura de 160o durante duas horas ou 170o por uma hora. É importante salientar que o tempo determinado é considerado somente após a temperatura ser atingida. Outra opção de esterilização é o calor úmido (autoclave), onde os materiais devem ficar a 121o por 20 minutos a uma pressão de 1 ATM. A desinfecção é o procedimento onde somente são destruídos os microrganismos patogênicos, mas não é capaz de atingir os esporos. Deve ser utilizada apenas quando a esterilização não for possível. Existem inúmeras opções de produtos, sendo os principais o glutaraldeído, o formaldeído e o hipoclorito de sódio. Os instrumentais devem ficar submersos por 30 minutos.

Em relação às barreiras mecânicas, quais devemos utilizar no dia-a-dia do consultório?

O uso de luvas, máscaras, gorro e óculos é obrigatório em todos os profissionais, independentemente do tipo de procedimento que for realizado. Nunca é exagero lembrar que a hepatite, por exemplo, possui alto poder de infectividade, podendo haver transmissão através da saliva. Outra recomendação é o uso de aventais que cubram completamente as roupas do profissional, a fim de se evitar que microrganismos que fiquem retidos sejam levados para o lar do cirurgião dentista e potencialmente levando algum tipo de contaminação. Os filmes plásticos tipo "magipak" devem ser substituídos a cada paciente em todos os locais que o CD tem contato, como por exemplo o refletor e o braço da cadeira.

Para o atendimento de paciente HIV positivo, devemos tomar alguma precaução especial em relação à biossegurança?

Não, pois as recomendações de biossegurança valem para todos os pacientes, até porque nunca se tem certeza de que aquela pessoa é ou não portadora de qualquer doença infecto-contagiosa.

É verdade que as primeiras manifestações da Aids são na cavidade bucal?

Esta não é uma afirmação que possamos dizer ser verdadeira na totalidade dos pacientes, mas em muitos casos realmente as primeiras manifestações são bucais. Por este motivo, o CD deve conhecer estas lesões e desta forma estar preparado para diagnosticar o HIV. Muitos pacientes não têm conhecimento da doença e têm no CD a chance de fazer seu diagnóstico. Todos sabemos que a Aids é uma doença que quanto mais precocemente for diagnosticada e iniciado o tratamento, melhores são as chances de sobrevida dos pacientes.

E quais são estas doenças que devemos estar atentos quanto ao HIV?

A principal manifestação bucal da Aids é, sem dúvida, a Candidíase Pseudo Membranosa. É uma doença fúngica que acomete pacientes imunodeprimidos. O seu aspecto clínico é uma ou mais placas brancas semelhantes a leite coalhado e seu sinal patognomônico é que estas podem ser removidas por raspagem, deixando uma superfície avermelhada e dolorosa. Outra doença de ocorrência freqüente são as Ulcerações Aftosas. Estas, com um curso clínico diferente das aftas comuns, por possuírem extensão maior, estarem presentes em grande número e possuírem tempo de evolução mais alongado. Periodontites de avanço rápido, com perda óssea e mobilidade dental, também são sinais importantes. Mais raro, mas não menos importante, é a ocorrência de Sarcoma de Kaposi, que é uma neoplasia maligna, de coloração violácea, crescimento rápido e limites indefinidos e usualmente assintomática. Em resumo, qualquer doença que possua curso ou aspecto clínico agressivo e diferente do rotineiro deve-se considerar a possibilidade de imunodepressão e, conseqüentemente, solicitar-se um anti-HIV.

Que outras doenças infecciosas podemos encontrar na cavidade bucal?

Inúmeras doenças causadas por microrganismos podem ocorrer na cavidade bucal, devendo portanto o cirurgião dentista estar preparado para preveni-las quando possível e tratá-las. Por exemplo, uma doença comum em nosso meio é a Paracoccidioidomicose (ou blastomicose), uma doença fúngica com aspecto ulcerativo, morulado e que pode acometer qualquer área da cavidade oral. Em resumo, para qualquer doença, é fundamental que se faça um exame clínico completo, ordenado e se biopsie qualquer lesão suspeita.


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