Panorama na
Periodontia

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Edição Out/Nov/Dez-2001
 
Dr. Charles Leahy fala sobre a sua vida profissional
por Dr. Charles Leahy
 
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Instado a escrever sobre minha vida profissional e a influência da periodontia nos tantos anos de vivência, passei a pensar bastante sobre o que poderia fazer e de que forma para melhor cumprir a tarefa e satisfazer o convite formulado. Coloquei a mente em cheque, rebuscando na memória um passado que, a bem da verdade, já vai um pouco longe. Mas, bem ou mal, farei chegar ao Dr. Walter Tom, diretor do Periodonto, o que puder tirar do baú das recordações.

Muito jovem, com 21 anos, concluí o curso de odontologia pela Faculdade de Odontologia da Universidade da Bahia, em 1953. Desde os tempos de acadêmico, prestava colaboração em aulas práticas na cadeira de clínica odontológica, a convite do titular, missão que exerci até meados de 1954, quando interrompi para tentar a vida profissional em São Paulo, o que aconteceu no dia 15 de agosto daquele ano.

Chegando à Paulicéia, trabalhei em consultório na Vila Bertioga, Casa Verde e rua Marconi. Por indicação de José de Almeida Carvalho me associei à A.P.C.D. – Associação Paulista de Cirurgiões Dentistas, passando a freqüentar a sede provisória na Av. São João e assistir às palestras que ali eram realizadas às quintas-feiras, às 21 horas.

Tive oportunidade de aprender com os que já sabiam e fazer tantos e bons amigos, muitos dos quais mantidos até hoje. Recordo de presidentes, alguns deles cujos nomes memorizei, como: Alberto Farias Cardoso, Plínio de Azevedo Marques, Reinaldo Todescan, Antônio Saraiva Filho, Gastão Cavalcante, Arão Rumel, Alfredo Reis Viegas, Álvaro Badra, Edmundo Negn, inclusive os incansáveis Marcelo Augusto Galante e Luiz Moreira de Silva, como membros da diretoria.

Em 1957, participei como sócio da A.P.C.D. do primeiro Congresso Paulista de Odontologia, não me recordando se realizado no Teatro Cultura Artística ou se na Fundação Álvares Penteado. Nisso, a memória não está me ajudando.

Continuei trabalhando e fazendo cursos na A. P.C.D. Em 1961, fiz estágio em periodontia na cadeira de Clínica, cujo titular era o professor Paulino Guimarães. Contei no referido estágio com os professores Policiano Leite Neto e Nelson Thomaz Lascala, este recém-chegado dos Estados Unidos, após curso na Tufts University com o professor Irving Glickman.

Meu contato maior foi com o professor Lascala, na ocasião grande entusiasta da gengivectomia. Da periodontia guardava apenas algumas poucas informações dadas, quando acadêmico, pelo professor Orandino Prado Filho em visita à Bahia. Maior conteúdo foi visto no estágio na Três Rios, em palestras na A.P.C.D., em livros ao longo dos anos, revistas e nos congressos em que participei.

Na ocasião, a periodontia não mostrava – pelo menos para mim – grandes avanços. Esse aspecto sofreu modificações com o curso do professor Henry Maurice Goldman, durante todo o mês de julho de 1965, em São Paulo, realizado na Faculdade da Três Rios. Trouxe o professor Goldman algumas novidades, principalmente na área cirúrgica, abordando com clareza técnicas de retalho, particularmente o "bisel invertido". Também despertou alguma curiosidade a contenção ou esplintagem com Nuva Fill.

Acredito que a partir desse curso, professores como Policiano, Lascala, Cássio, José Todescan, Belém Novais, Waldir Janson, Alfeu Eloy Bary e outros de São Paulo, além de Rugerpe Pedreira, Jair Cunha e Neide Tinoco, do Rio de Janeiro, passaram todos a divulgar informações e conceitos novos para alunos de graduação e profissionais. Assim também procedi, já que, desde 1964, estava em Maceió, respondendo pela disciplina de periodontia.

Aos poucos, e cada vez mais, a periodontia foi crescendo e ocupando espaço como ciência integrada às demais disciplinas, induzindo ao entendimento de que a prevenção ainda é o melhor caminho para evitar a placa, cálculo e demais alterações decorrentes da presença desses dois fatores iniciais da doença periodontal. Fatores sistêmicos, traumatismo, mobilidade e outros assuntos têm participação efetiva nas alterações periodontais. Continuam sendo pesquisados.

Ainda no ano de 1962 e 1963 fiz estágio na disciplina de prótese com o professor Palmiro Fava, ocasião em que participavam os professores Silas da Cunha Ribeiro Orfeu de Sousa Ávila, Tadachi Tamaki , Artêmio Zanetti, Reinaldo Todescan, Canami, Américo Nepumoceno Vieira e Camilo Morais. Nessa ocasião, eram alunos do curso de odontologia os jovens Flávio Fava de Morais, Tetsuo Saito, Domingos Bassanta, Miaki Issao, Moacyr da Silva e Antônio Guedes Pinto, que viriam no futuro a integrar o corpo docente da Faculdade de Odontologia de São Paulo.

Em 1964, tendo recebido convite para participar do Corpo Docente de Faculdade de Odontologia de Alagoas, voltei para Maceió, aqui fixando residência com minha família. Comecei na disciplina de clínica II e depois passei a reger a disciplina de periodontia até a chegada da aposentadoria por tempo de serviço em 1992.

Sócio da Sobrape, número 073, participei de cursos e congressos ligados à especialidade em Fortaleza, Rio Grande do Norte, Recife, Maceió (como presidente), Salvador (duas vezes), Vitória (duas vezes), Brasília, Goiânia, São Paulo, Florianópolis e Cuiabá. Em todas essas oportunidades, pude rever e fazer novos amigos nos mais variados recantos do País.

Minha ligação com a Soprape vem de longa data. Acompanhei a família Sobrapeana desde que ela era pequena, reduzida a alguns sócios. Pude sentir seu crescimento até os dias atuais, quando podemos dizer que se impôs ao respeito e reconhecimento de todos quantos dela participam.

Tive perfeita integração com os presidentes Moisés Moreinos, Juarez Correia da Silveira, Yeddy Pereira, João Nunes Pinheiro, Rodrigo Veras de Almeida, Javan Seixas de Paiva, Paulo Roberto Pereira de Sá e Nelson Thomaz Lascala, a maioria ainda vivos, ativos e mais que isso: velhos amigos. Dei sempre minha modesta colaboração em todas as oportunidades em que pude estar presente.

Vivo a emoção de ainda estar participando do trabalho diário no consultório, na luta com a placa bacteriana e acompanhando a constante evolução da periodontia no conceito das suas especialidades co-irmãs.

Eis aqui, de forma sucinta, uma recordação do passado reverenciada com estima por um velho guerreiro nordestino cirurgião-dentista, que talvez por essa razão tenha merecido a indicação para a Medalha Luiz César Panaim; para Felow, do Internacional College of Dentistry; para presidente do 10º Congresso da Sobrape (em Maceió); para recebimento de diploma e placa comemorativa dos 25 anos da Sobrape, medalha e diploma dos 30 anos da Sobrape; conselheiro efetivo e sócio remido da Sobrape e da APCD; especialista pelo CFO e ex. professor de periodontia de Universidade Federal de Alagoas.

Apesar de tudo que se fez e está sendo feito na periodontia, cada vez mais estou convencido de que o profissional da odontologia deve ser, em primeiro lugar, um CLÍNICO, para depois optar pela especialidade e acreditar que a mais sofisticada técnica não obterá êxito se não houver o critério preventivo de dentes limpos e sem PLACA.



Dr. Charles Leahy