Reportagem de capa

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  Edição Jul/Ago/Set-2001
 
Inter-relação: medicina geriátrica e odontogeriatria
Dr. Edson Peres Sinnes e Dr. Walter Tom
 

 

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Dia 27 de setembro foi comemorado o Dia Internacional do Idoso. Por coincidência, a reportagem de capa desta edição do Periodonto trata sobre este assunto, mas abordando a a inter-relação medicina odontologia sobre este segmento especial de atendimento que cresce dia-a-dia. Cada vez mais a inter-relação com o médico que atende os pacientes que vão aos consultórios dos dentistas é importante. A distância ou falta deste contato pode prejudicar a evolução a um prognóstico favorável em relação à doença periodontal, principalmente no idoso. Muitas vezes, deixa-se de aproveitar esta relação por vários motivos, sejam eles o receio a invasão da privacidade do paciente sobre seu estado de saúde, física ou psíquica. O fato é: não importa o motivo. Todos ganharão, principalmente o paciente , pois será avaliado globalmente com uma visão multidisciplinar.

E é justamente sobre esse pensamento que a dra. Gisela Frazato comenta. "A troca de informações entre os profissionais de saúde que cuidam deste paciente é muito importante para a avaliação do quadro geral daquele indivíduo. A saúde bucal faz parte do quadro de saúde geral."

Para a dra. Gisela, a inter-relação medicina geriátrica e odontogeriatria é fundamental, visto que o Brasil está envelhecendo. Em 25 anos, a população de idosos será a sexta do mundo, o que significará 33 milhões de pessoas com idade acima de 65 anos. Um aumento de 250%. "Antigamente, a perda dental e os problemas decorrentes eram situações vistas como inevitáveis na velhice. O desafio era a prevenção na criança para se baixar o índice de cárie. Hoje, o desafio em odontologia é a prevenção da saúde bucal no idoso, uma vez que a expectativa de vida aumentou", comenta. "O dentista avalia o estado clínico bucal do paciente e, especialmente, o periodontista tem condições de detectar situações que podem ser reflexos de condições sistêmicas. Já o médico pode fornecer ao dentista dados preciosos sobre a real situação do paciente, assim como sobre interações medicamentosas ou necessidade de antibioticoterapia profilática."

Mas ela também faz algumas ressalvas. "Não se deve esquecer que o perfil do idoso é diferente de um adulto, assim como um adulto é diferente de um adolescente. À medida que se envelhece a composição do corpo vai mudando. Perde-se água e massa muscular, e a gordura corporal aumenta. Desta forma, o metabolismo muda. Além destas modificações, o idoso pode apresentar alguma patologia com conseqüências bucais ou periodontais." Dentre essas patologias, está a osteoporose (e/ou osteopenia), que afeta 30% das mulheres pós-menopausa. "Pode ser um fator de perda óssea maxilar e perdas dentais, um avanço mais acelerado da doença periodontal." E a artose, que dificulta a abertura de boca, a mastigação e as condições de higiene. Ainda, em pacientes debilitados é comum encontrar infecções oportunistas, como a candidíase, que na cavidade bucal causa ainda mais desconforto, dificultando a alimentação e agindo como mais um fator debilitante.

É necessário também lembrar que o idoso faz uso de alguns medicamentos, que apresentam efeitos colaterais ou mesmo provocam outras patologias. Exemplo: o uso continuado de anti-inflamatório para tratamento de uma artrose pode provocar hipertensão. Alguns anti-hipertensivos provocam hiperplasia gengival. Xerostomia medicamentosa diminui o efeito tampão da saliva e a perda da defesa do esmalte, do cemento e da dentina. A profilaxia periodontal periódica pode ser preventiva a problemas respiratórios em pacientes debilitados. "Há relação entre doença periodontal severa, bacteremia e mediadores inflamatórios como agravadores de problemas cardíacos, assim como com acidentes vasculares cerebrais." Portanto, a análise da situação física e cognitiva do paciente é de muito valor quando se faz um plano de tratamento. Deve-se ouvir a história odontológica, expectativas em relação ao trabalho a ser executado, a capacidade daquele paciente de colaborar, de comparecer às visitas agendadas, e as condições de higienização precisam ser levadas em consideração.

Por ser um paciente idoso, a abordagem do profissional também deve ser diferenciada, pois a compreensão do que está sendo dito pode estar comprometida. "O paciente pode ter limitações cognitivas e de movimento. Geralmente, o idoso é carente de atenção, seu cérebro funciona diferente, as respostas rápidas são mais difíceis, a queixa não é clara e as explicações podem não ser entendidas", lembra a dra. Gisela, acrescentando que o paciente não relata dor, mas pode estar recusando comida ou higienização. Portanto, também é importante o diálogo com familiares ou com o cuidador de um paciente com maior comprometimento cognitivo.

Outro fator que deve ser levado em consideração é o tempo de atendimento, que precisa ser reavaliado. "Deve-se fazer sessões mais curtas para se evitar maior desconforto. A qualidade de vida deve ser sempre levada em consideração, também na relação custo-benefício daquele tratamento", afirma. Os procedimentos invasivos devem ser repensados em virtude do estado geral do paciente. "A situação bucal deve proporcionar boas condições de mastigação, para que a nutrição do paciente não fique comprometida. Cada vez mais pacientes idosos, dentados ou parcialmente dentados, procuram o cirurgião dentista para manter ou até melhorar sua função mastigatória, sem perder a estética. Os implantes também são uma ótima alternativa que melhora a perspectiva para devolver elementos perdidos, ou mesmo reabilitar o idoso para uma vida de melhor qualidade."

Dra. Gisela lembra, ainda, que o paciente que manteve sua dentição saudável durante a vida vai chegar à velhice com maior exposição radicular em função de alguma retração gengival. "A anatomia estará mais propícia à retenção de resíduos, a higiene deste nichos estará dificultada, e o colo dental mais sujeito a cárie." Outro fator agravante é a dieta do idoso, geralmente mais pastosa e rica em carboidratos. A higiene, geralmente, é deficiente, o que favorece maior acidez no meio bucal. Por isso, a cárie na região cervical é mais ativa, acontece o amolecimento dos tecidos em poucos meses sem que ele se escureça. Os trabalhos executados podem ter pouca durabilidade. "Em função de os tratamentos terem sido executados subseqüentemente durante a vida, o idoso pode apresentar vários dentes com tratamento endodôntico ou com calcificação pulpar, não apresentando sensibilidade dentinária, favorecendo uma evolução cariosa sem que o paciente perceba. Alguns medicamentos provocam hiperplasia gengival, em áreas já com pouca higiene, o que exacerba um processo inflamatório periodontal ou acelera um processo carioso. " Por isso, sem sombra de dúvida, a manutenção da saúde bucal e a prevenção são os melhores tratamentos que se pode realizar em pacientes idosos.

 


Visão médico-geriatra

  Periodonto também foi ouvir a opinião da médica geriatra, dra. Deborah Bonini, da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, sobre a inter-relação medicina geriátrica e odontogeriatria.

Quais os benefícios da interação do médico geriatra com o cirurgião dentista?

Os benefícios são vários, como: definir conjuntamente um plano de tratamento, principalmente no idoso que faz uso de alguma medicação ou é portador de alguma patologia. Exemplo: idoso portador de insuficiência renal precisa de muita cautela na escolha do anti-inflamatório, pois o uso indevido de determinados medicamentos poderia até agudizar uma insuficiência renal crônica. O idoso portador de síndrome dispéptica (gastrite, úlcera, hérnia de hiato ou esofagite) ao usar antibiótico ou anti-inflamatório poderá desencadear crise aguda de dor, chegando até a hemorragia digestiva. Para prevenir, o médico auxilia o dentista informando suas condições de saúde e sobre a necessidade de fazer uma proteção gástrica para tal paciente. Outro benefício: idosos com quadro de ansiedade ou síndrome depressiva poderiam beneficiar-se de uma medicação prévia prescrita pelo médico geriatra (calmante, ansiolítico ou antidepressivo).

Como lidar com a resistência do paciente em submeter-se à manutenção e controle ou em aceitar as suas obrigações de casa em relação à higiene bucal?

Primeiro, o esclarecimento de forma clara feito pelos dois profissionais (médico e cirurgião dentista) sobre os riscos e benefícios que ele (paciente) poderá ter tratando ou não tratando. Os benefícios são vários: melhora ou preservação do seu estado nutricional, manter compensados suas doenças crônicas (ex. diabetis), auto-imagem positiva, auto-estima, aceitação perante a sociedade e a própria família. Caso contrário, estas patologias são evolutivas e degenerativas. Estas informações devem ser igualmente transmitidas ao cuidador e familiares.

Os profissionais devem ter consciência de que o idoso pode ser portador de déficits auditivos, visuais e de funções cognitivas (memória), devendo certificar-se de que o paciente entendeu as orientações.

Como a dra. vê a geriatria no Brasil dos dias de hoje?

A geriatria é uma especialidade médica relativamente nova, tem aproximadamente 15 anos, sendo que nos últimos 10 anos vem crescendo e sendo respeitada pelos profissionais das áreas de saúde e também pela população.

Na fase inicial da geriatria no Brasil, as pessoas procuravam o geriatra com intuito curativo. Hoje, o aspecto mudou e a procura também é preventiva.

Um aspecto triste é que, às vezes, a família não investe no idoso, como por exemplo em relação à limitação na condição de alimentação, dizendo que ele não quer mais comer carne ou outros alimentos, apenas gosta de chá, bolacha ou, no máximo, frango desfiado, sem observar que a procura por tais alimentos, na maioria das vezes, está relacionada com a deficiência mastigatória.

Outro aspecto é não se ter profissionais treinados para cuidar do idoso, como o cuidador, que deveria receber treinamento adequado (de enfermagem). Muitas vezes é um profissional como doméstica que passou a trabalhar como cuidador, mas que também muitas vezes levam informações importantes dos médicos e dentista aos familiares e não são ouvidos ou pouco interferem nas decisões da família sobre o tratamento do idoso.

Também o aspecto econômico que em grande parte o idoso não tem como se auto-sustentar e quem o mantém é um(a) filho(a), sobrinho(a) ou parente e passa a depender da resistência deste que o mantém economicamente, além da resistência do próprio idoso.

O que a doutora gostaria de acrescentar?

Uma coisa que todos os profissionais da área de saúde devem ter em mente é: "O mais importante não é acrescentar anos à vida, mas sim acrescentar vida aos anos".