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Dia
27 de setembro foi comemorado o Dia Internacional do Idoso. Por
coincidência, a reportagem de capa desta edição do Periodonto trata
sobre este assunto, mas abordando a a inter-relação medicina odontologia
sobre este segmento especial de atendimento que cresce dia-a-dia.
Cada vez mais a inter-relação com o médico que atende os pacientes
que vão aos consultórios dos dentistas é importante. A distância
ou falta deste contato pode prejudicar a evolução a um prognóstico
favorável em relação à doença periodontal, principalmente no idoso.
Muitas vezes, deixa-se de aproveitar esta relação por vários motivos,
sejam eles o receio a invasão da privacidade do paciente sobre seu
estado de saúde, física ou psíquica. O fato é: não importa o motivo.
Todos ganharão, principalmente o paciente , pois será avaliado globalmente
com uma visão multidisciplinar.
E
é justamente sobre esse pensamento que a dra. Gisela Frazato comenta.
"A troca de informações entre os profissionais de saúde que cuidam
deste paciente é muito importante para a avaliação do quadro geral
daquele indivíduo. A saúde bucal faz parte do quadro de saúde geral."
Para
a dra. Gisela, a inter-relação medicina geriátrica e odontogeriatria
é fundamental, visto que o Brasil está envelhecendo. Em 25 anos,
a população de idosos será a sexta do mundo, o que significará 33
milhões de pessoas com idade acima de 65 anos. Um aumento de 250%.
"Antigamente, a perda dental e os problemas decorrentes eram situações
vistas como inevitáveis na velhice. O desafio era a prevenção na
criança para se baixar o índice de cárie. Hoje, o desafio em odontologia
é a prevenção da saúde bucal no idoso, uma vez que a expectativa
de vida aumentou", comenta. "O dentista avalia o estado clínico
bucal do paciente e, especialmente, o periodontista tem condições
de detectar situações que podem ser reflexos de condições sistêmicas.
Já o médico pode fornecer ao dentista dados preciosos sobre a real
situação do paciente, assim como sobre interações medicamentosas
ou necessidade de antibioticoterapia profilática."
Mas
ela também faz algumas ressalvas. "Não se deve esquecer que o perfil
do idoso é diferente de um adulto, assim como um adulto é diferente
de um adolescente. À medida que se envelhece a composição do corpo
vai mudando. Perde-se água e massa muscular, e a gordura corporal
aumenta. Desta forma, o metabolismo muda. Além destas modificações,
o idoso pode apresentar alguma patologia com conseqüências bucais
ou periodontais." Dentre essas patologias, está a osteoporose (e/ou
osteopenia), que afeta 30% das mulheres pós-menopausa. "Pode ser
um fator de perda óssea maxilar e perdas dentais, um avanço mais
acelerado da doença periodontal." E a artose, que dificulta a abertura
de boca, a mastigação e as condições de higiene. Ainda, em pacientes
debilitados é comum encontrar infecções oportunistas, como a candidíase,
que na cavidade bucal causa ainda mais desconforto, dificultando
a alimentação e agindo como mais um fator debilitante.
É
necessário também lembrar que o idoso faz uso de alguns medicamentos,
que apresentam efeitos colaterais ou mesmo provocam outras patologias.
Exemplo: o uso continuado de anti-inflamatório para tratamento de
uma artrose pode provocar hipertensão. Alguns anti-hipertensivos
provocam hiperplasia gengival. Xerostomia medicamentosa diminui
o efeito tampão da saliva e a perda da defesa do esmalte, do cemento
e da dentina. A profilaxia periodontal periódica pode ser preventiva
a problemas respiratórios em pacientes debilitados. "Há relação
entre doença periodontal severa, bacteremia e mediadores inflamatórios
como agravadores de problemas cardíacos, assim como com acidentes
vasculares cerebrais." Portanto, a análise da situação física e
cognitiva do paciente é de muito valor quando se faz um plano de
tratamento. Deve-se ouvir a história odontológica, expectativas
em relação ao trabalho a ser executado, a capacidade daquele paciente
de colaborar, de comparecer às visitas agendadas, e as condições
de higienização precisam ser levadas em consideração.
Por
ser um paciente idoso, a abordagem do profissional também deve ser
diferenciada, pois a compreensão do que está sendo dito pode estar
comprometida. "O paciente pode ter limitações cognitivas e de movimento.
Geralmente, o idoso é carente de atenção, seu cérebro funciona diferente,
as respostas rápidas são mais difíceis, a queixa não é clara e as
explicações podem não ser entendidas", lembra a dra. Gisela, acrescentando
que o paciente não relata dor, mas pode estar recusando comida ou
higienização. Portanto, também é importante o diálogo com familiares
ou com o cuidador de um paciente com maior comprometimento cognitivo.
Outro
fator que deve ser levado em consideração é o tempo de atendimento,
que precisa ser reavaliado. "Deve-se fazer sessões mais curtas para
se evitar maior desconforto. A qualidade de vida deve ser sempre
levada em consideração, também na relação custo-benefício daquele
tratamento", afirma. Os procedimentos invasivos devem ser repensados
em virtude do estado geral do paciente. "A situação bucal deve proporcionar
boas condições de mastigação, para que a nutrição do paciente não
fique comprometida. Cada vez mais pacientes idosos, dentados ou
parcialmente dentados, procuram o cirurgião dentista para manter
ou até melhorar sua função mastigatória, sem perder a estética.
Os implantes também são uma ótima alternativa que melhora a perspectiva
para devolver elementos perdidos, ou mesmo reabilitar o idoso para
uma vida de melhor qualidade."
Dra.
Gisela lembra, ainda, que o paciente que manteve sua dentição saudável
durante a vida vai chegar à velhice com maior exposição radicular
em função de alguma retração gengival. "A anatomia estará mais propícia
à retenção de resíduos, a higiene deste nichos estará dificultada,
e o colo dental mais sujeito a cárie." Outro fator agravante é a
dieta do idoso, geralmente mais pastosa e rica em carboidratos.
A higiene, geralmente, é deficiente, o que favorece maior acidez
no meio bucal. Por isso, a cárie na região cervical é mais ativa,
acontece o amolecimento dos tecidos em poucos meses sem que ele
se escureça. Os trabalhos executados podem ter pouca durabilidade.
"Em função de os tratamentos terem sido executados subseqüentemente
durante a vida, o idoso pode apresentar vários dentes com tratamento
endodôntico ou com calcificação pulpar, não apresentando sensibilidade
dentinária, favorecendo uma evolução cariosa sem que o paciente
perceba. Alguns medicamentos provocam hiperplasia gengival, em áreas
já com pouca higiene, o que exacerba um processo inflamatório periodontal
ou acelera um processo carioso. " Por isso, sem sombra de dúvida,
a manutenção da saúde bucal e a prevenção são os melhores tratamentos
que se pode realizar em pacientes idosos.
Visão médico-geriatra
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Periodonto
também foi ouvir a opinião da médica geriatra, dra. Deborah
Bonini, da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo,
sobre a inter-relação medicina geriátrica e odontogeriatria.
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Quais os benefícios da interação do médico
geriatra com o cirurgião
dentista?
Os benefícios são vários, como: definir conjuntamente um plano de
tratamento, principalmente no idoso que faz uso de alguma medicação
ou é portador de alguma patologia. Exemplo: idoso portador de insuficiência
renal precisa de muita cautela na escolha do anti-inflamatório,
pois o uso indevido de determinados medicamentos poderia até agudizar
uma insuficiência renal crônica. O idoso portador de síndrome dispéptica
(gastrite, úlcera, hérnia de hiato ou esofagite) ao usar antibiótico
ou anti-inflamatório poderá desencadear crise aguda de dor, chegando
até a hemorragia digestiva. Para prevenir, o médico auxilia o dentista
informando suas condições de saúde e sobre a necessidade de fazer
uma proteção gástrica para tal paciente. Outro benefício: idosos
com quadro de ansiedade ou síndrome depressiva poderiam beneficiar-se
de uma medicação prévia prescrita pelo médico geriatra (calmante,
ansiolítico ou antidepressivo).
Como
lidar com a resistência do paciente em submeter-se à manutenção
e controle ou em aceitar as suas obrigações de casa em relação à
higiene bucal?
Primeiro,
o esclarecimento de forma clara feito pelos dois profissionais (médico
e cirurgião dentista) sobre os riscos e benefícios que ele (paciente)
poderá ter tratando ou não tratando. Os benefícios são vários: melhora
ou preservação do seu estado nutricional, manter compensados suas
doenças crônicas (ex. diabetis), auto-imagem positiva, auto-estima,
aceitação perante a sociedade e a própria família. Caso contrário,
estas patologias são evolutivas e degenerativas. Estas informações
devem ser igualmente transmitidas ao cuidador e familiares.
Os
profissionais devem ter consciência de que o idoso pode ser portador
de déficits auditivos, visuais e de funções cognitivas (memória),
devendo certificar-se de que o paciente entendeu as orientações.
Como
a dra. vê a geriatria no Brasil dos dias de hoje?
A
geriatria é uma especialidade médica relativamente nova, tem aproximadamente
15 anos, sendo que nos últimos 10 anos vem crescendo e sendo respeitada
pelos profissionais das áreas de saúde e também pela população.
Na fase inicial da geriatria no Brasil, as pessoas procuravam o
geriatra com intuito curativo. Hoje, o aspecto mudou e a procura
também é preventiva.
Um
aspecto triste é que, às vezes, a família não investe no idoso,
como por exemplo em relação à limitação na condição de alimentação,
dizendo que ele não quer mais comer carne ou outros alimentos, apenas
gosta de chá, bolacha ou, no máximo, frango desfiado, sem observar
que a procura por tais alimentos, na maioria das vezes, está relacionada
com a deficiência mastigatória.
Outro
aspecto é não se ter profissionais treinados para cuidar do idoso,
como o cuidador, que deveria receber treinamento adequado (de enfermagem).
Muitas vezes é um profissional como doméstica que passou a trabalhar
como cuidador, mas que também muitas vezes levam informações importantes
dos médicos e dentista aos familiares e não são ouvidos ou pouco
interferem nas decisões da família sobre o tratamento do idoso.
Também o aspecto econômico que em grande parte o idoso não tem como
se auto-sustentar e quem o mantém é um(a) filho(a), sobrinho(a)
ou parente e passa a depender da resistência deste que o mantém
economicamente, além da resistência do próprio idoso.
O
que a doutora gostaria de acrescentar?
Uma coisa que todos os profissionais da área de saúde devem ter
em mente é: "O mais importante não é acrescentar anos à vida, mas
sim acrescentar vida aos anos".
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