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Entrevistas Relação entre a doença periodontal e as doenças respiratórias (SPCO - Doença pulmunar Crônica Obstrutiva)

 

 

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com Paula Regina O. de Carvalho e Dr. Francisco Vargas

 

 

 
 

Peridonto: Como podemos estabelecer uma relação entre a doença periodontal e às doenças respiratórias?

Paula Regina - Já na antigüidade Hipócrates discutiu, pela primeira vez, a teoria da infecção focal postulando uma relação causal entre doença infecciosa e alterações inflamatórias em partes distantes do corpo. As doenças infecciosas são causadas por diferentes grupos de patógenos, cuja característica é que diferentes espécies podem desenvolver doenças em diferentes sítios orgânicos. A doença periodontal é uma doença infecciosa crônica, causada principalmente por bactérias gram negativas, que se instalam e se multiplicam na cavidade bucal. Dentre as espécies encontradas podemos observar microorganismos que não fazem parte da microbiota bucal (origem exógena) e acabam por compor mais de 50% dos patógenos presentes na cavidade bucal. A presença destas espécies incomuns é verificada também nas lesões periodontais, sugerindo sua participação na etiopatogenia das doenças periodontais e permitindo considerar sua importância no desenvolvimento das doenças respiratórias.

Peridonto: De onde viriam os microorganismos envolvidos na inter-relação da doença periodontal e doenças respiratórias?

Paula Regina - Muitos dos patógenos que colonizam a orofaringe ou a cavidade bucal são de origem exógena, podendo emergir de um tratamento antibiótico. As vias aéreas superiores são comumente contaminadas com microorganismos originados das cavidades bucal e nasal e por extensão, colonizam as vias aéreas inferiores. Nesta disseminação é importante considerar a aspiração de microorganismos da orofaringe, inalação de aerossóis infectantes, propagação da infecção de áreas adjacentes como a translocação bacteriana vinda do trato gastrointestinal, contaminação hematógena através de sítios extrapulmonares, como a cavidade bucal, implantação direta (trauma ou cirurgia) e a extensão de continuidade de focos ou abcessos. Espécies de microorganismos colonizadores da microbiota bucal de pacientes com Doença Periodontal poderão se instalar no trato respiratório inferior por alguma via descrita acima, caso o sistema imunológico não seja capaz de eliminálos. Desta forma, a microbiota da orofaringe tem papel primordial na etiopatogenia da Pneumonia e Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica (DPCO).

Peridonto: A manutenção da saúde periodontal pode diminuir os índices de doenças sistêmicas como as doenças respiratórias?

Paula Regina - A maioria das infecções pulmonares ocorre por aspiração de microorganismos da orofaringe e ocasionalmente por via hematogênica. Através dos atos de estímulo dentogengival, que variam da função (mastigação por exemplo) até a higiene bucal, ocorrem bacteremias onde as bactérias periodontais ou seus produtos invadem diretamente os tecidos periodontais. Estes fatos representam um mecanismo pelo qual a bactéria associada à Doença Periodontal pode acessar a circulação sistêmica, onde a principal via de pre-venção é a manutenção da saúde periodontal.

Peridonto: Como a doença periodontal afeta a saúde sistêmica dos indivíduos?

Paula Regina - A importância da infecção periodontal no início e/ou progressão de importantes e severas doenças sistêmicas, foi descrito considerando que a doença periodontal afeta a saúde sistêmica por um ou mais mecanismos:

1- extensão direta da infecção para o periodonto em profundidade, tecidos adjacentes (plano facial, seios da face, infecção cerebral);

2- passagem dos mediadores inflamatórios do periodonto para a circulação afetando a função em distantes sítios;

3- penetração da bactéria bucal no sistema circulatório, causando infecções em sítios distantes (endocardite, trombose, arteriosclerose, infecções respiratórias);

4- difusão das bactérias bucais, dos produtos bacterianos, dos produtos da resposta ou até mesmo próprios do hospedeiro, para locais à distância, promovendo ou exacerbando a doença como no caso das infecções pulmonares.

Peridonto:Indivíduos que apresentam risco de terem doença periodontal podem apresentar risco de DPCO?

Paula Regina - Pode existir mecanismo patogenético comum para a DPCO e Doença Periodontal, possivelmente relacionado à associação de predisposição genética, fatores de risco ambientais como o fumo. Deve haver a participação crucial dos neutrófilos levando à destruição tecidual por substâncias de origem bacteriana ou do próprio hospedeiro. Pode-se então suspeitar que indivíduos com risco de apresentarem Doença Periodontal também estariam sujeitos à DPCO.

Peridonto: Pacientes internados em UTI apresentam maior risco de contraírem infecções pulmonares?

Paula Regina - Muitas pesquisas documentam que pacientes admitidos nas Unidades de Terapia Intensiva tem higiene bucal mais pobre do que os pacientes não hospitalizados e tem maior prevalência de colonização de patógenos respiratórios em seus dentes e mucosa bucal. A falta de adequada higiene bucal, nestes pacientes, otimiza as condições de crescimento bacteriano. O aumento do volume e da complexidade da placa dental pode promover interações bacterianas entre bactérias nativas da placa e patógenos respiratórios podendo contribuir para o desenvolvimento de doenças respiratórias, como a Pneumonia e DPCO.

Peridonto: As bactérias bucais podem influenciar na patogênese de doenças respiratórias como a Pneumonia e a DPCO?

Paula Regina - A idéia de que as bactérias bucais podem influenciar na flora bacteriana dos brônquios não é nova. Em 1968, Potter pesquisou o trato respiratório inferior de voluntários, observando que grande parte destes apresentavam bactérias bucais nos brônquios. Uma variedade de espécimes anaeróbias da microbiota bucal tem sido encontrada em culturas provenientes de fluidos pulmonares infectados (P. gengivalis, Bacterioides gracilus, Bacterioides oralis, Bacterioides bucal, EiKenella corrodens, F. nucleatum, Peptostreptococcus, Clostridium actinomyces).

A maior parte, se não todos estes organismos, tem sido implicados como agentes etiológicos da doença periodontal. O Streptococcus viridans, entendido por muitos como de baixa virulência pode participar da iniciação e ou progressão da Pneumonia. A Pneumonia adquirida em hospitais (Nosocomial) é freqüentemente associada a microrganismos como: Bacilos gram negativos (incluindo bactérias Entéricas: Escherichia coli, Klebsiela pneumoniae, Serratia aeruginosa e Staphylococcus aureus) , um dos membros mais fre-qüentes da microbiota bucal).

Peridonto: Qual seria o possível tratamento para diminuir a microbiota bucal em pacientes hospitalizados?

Paula Regina - O uso de bochechos com clorexidina 0.12% em pacientes hospitalizados mostrou, em média, 65% de diminuição da incidência de Pneumonia Nosocomial, reduzindo a necessidade de antibioticoterapia e os efeitos colaterais provocados pela sua administração.

Peridonto: Podemos estabelecer uma relação de causa e efeito entre a doença periodontal e a doença respiratória?

Paula Regina - A doença periodontal e as doenças sistêmicas, como a Pneumonia e a DPCO podem aparecer juntas, sem que isto indique uma relação de causa e efeito. A doença periodontal pode ser meramente um componente bucal de um distúrbio sistêmico, pode apresentar fatores etiológicos comuns com as doenças sistêmicas ou ser ocasionada por um problema sistêmico. È muito importante que os cirurgiões-dentistas, juntamente com os médicos, tenham extremo cuidado an-tes de afirmarem a existência desta relação.

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Entrevista com dr Francisco Vargas, médico pneumologista.

Peridonto: Qual a conceituação atual de Pneumonia e DPCO?

D. Vargas - Pneumonia é uma doença comum, sendo definida como a inflamação e a consolidação do tecido pulmonar, provocada por um agente infeccioso. Pneumonia que acomete o paciente fora do ambiente hospitalar ou que surge nas primeiras horas da admissão é chamada de Pneumonia Adquirida na Co-munidade (PAC). Pneumonia que acomete o paciente 72 horas após a admissão é chamada de Pneumonia Nosocomial ou adquirida no hospital. Entre as internações por doenças respiratórias, a Pneumonia está em primeiro lugar, asma em segundo e DPOC em terceiro. Estimase que a incidência mundial seja de 12 casos por 1000 indivíduos por ano, sendo 80% tratados de forma ambulatorial. No Brasil, as pneumonias são a primeira causa de morte entre as doenças respiratórias e ocupam o quarto lugar na mortalidade geral em adultos, resultando em aproximadamente 26.500 óbitos por ano. DPOC é uma sigla que descreve entidades fisiopatológicas que se caracterizam por obstrução ao fluxo aéreo, incluindo: bronquite crônica, enfisema, asma e bronquiectasias. Entre as causas mais comuns estão o tabagismo (85-90% dos casos), fatores genéticos (deficiência de alfa 1 antitripsina), exposição ocupacional, poluição e possivelmente hiperresponsividade da via aérea. As infecções do trato respiratório são as complicações mais freqüentes em pacientes portadores de DPOC.

Peridonto: Peridonto: O sr. acredita que exista uma relação entre a doença periodontal e as doenças respiratórias?

Dr. Vargas - A cavidade oral estende-se dos lábios até a parte posterior da língua. Vários são os tipos de agentes patógenos a colonizar esta cavidade, entre eles: S mutans, que é o maior patógeno, S mitis, S salivarius e anaeróbios (Peptoestreptococcus, porphyromonas gingivalis, Veillonella, Lactobacilos, Bacteroides, Prevotella). Pneumonia bacteriana em adultos pode resultar da aspiração da flora orofaríngea para o trato respiratório inferior. Falha no meca-nismo de defesa do hospedeiro, para eliminar o agente patógeno, faz com que este se multiplique e cause infecção. Reconhece-se que pneumonia adquirida na comunidade e abscesso pulmonar podem ser causadas por bactérias anaeróbias; a placa dentaria seria o sítio de origem da infecção, especialmente em pacientes com doença periodontal. Portanto, os dentes servem como reservatório para a colonização de patógenos respiratórios e o subseqüente aparecimento de pneumonia nosocomial. Alguns mecanismos propostos para explicar a participação das bactérias orais na patogénese do trato respiratório são:

1. aspiração de agentes patógenos para o pulmão;

2. doença periodontal associada a enzimas da saliva que alteram a mucosa, provocando adesão e colonização por patógenos respiratórios quando aspirados para o pulmão;

3. doença periodontal associada a enzimas que podem destruir a fina película de saliva que envolve as bactérias patógenas provocando au-mento no clearance da superfície da mucosa;

4. citoquinas originadas dos tecidos peridentários podem alterar o epitelio respiratório provo-cando infecção por patógenos respiratórios.

Peridonto: Quando observa alguma alteração bucal, como focos de infecção periodontal em seus pacientes, qual a conduta a ser tomada?

Dr. Vargas - Já na admissão do paciente no hospital, ou na consulta ambulatorial, se realizam seqüencialmente a anamnese, a história da doença atual e o exame físico. É importante por tanto, desde o principio, estar alerta sobre qualquer alteração nos diferentes sistemas que formam a unidade do indivíduo. No caso de detecção de doença periodontal, a orientação sobre o potencial perigo que representa esta entidade é básica e importante, assim como o encaminhamento do paciente ao odontólogo para conduta especializada.

Peridonto: Atualmente, a medicina e a odontologia correm juntas por um mesmo objetivo, TRATAR O PACIENTE COMO UM TODO. Qual a recomendação dada em relação à saúde bucal para seus pacientes?

Dr. Vargas - À medida que avançam os estudos, nas diferentes disciplinas da área da saúde e, à medida que as descobertas são cada vez mais baseadas em evidências científicas, é importante não esquecer que o paciente é uma unidade complexa que requer de cuidados diversos e que somos nós, trabalhadores em saúde, que devemos orientar e educar dentro do possível aos nossos pacientes.

Peridonto:Pacientes de UTIs são os que neces-sitam de cuidados bucais, existe alguma preocupação em relação a higiene e controle de placa bacteriana nestes pacientes?

Dr. Vargas - É importante mencionar que muitos dos estudos que foram realizados em pacientes internados em UTI nos levam a pensar que esses pacientes não apresentam higiene oral adequada, o que logicamente nos conduz a relacionar, em alguns casos, complicações respiratórias decorrentes de um foco primário bucal. Nas diferentes UTIs e de acordo ao tipo de paciente internado, são tomadas algumas condutas importantes, por exemplo: em UTI que maneja portadores de valvulopatias cardíacas, é importante descartar a doença periodontal e, no caso de demonstração, a ação deverá ser rápida para evitar complicações que possam levar à morte do paciente. No resto das UTIs, a observação, o exame físico, os recursos laboratoriais são as armas principais para detecção precoce de doença periodontal ou qualquer outro tipo de foco infeccioso. Finalmente, a introdução de antimicrobianos específicos pode fazer a diferença entre a alta do paciente ou um desfecho infeliz.


 

* Paula Regina O. de Carvalho é aluna do curso de especialização em Periodontia da Associação Brasileira de Ensino Odontológico (Abeno), sob a coordenação do professor Francisco Roberto Bueno de Moraes.

* Dr. Mateo S. Yaksic (residente de 4º ano) e Francisco Vargas (profesor titular), ambos da Disciplina de Pneumologia da Faculdade de medicina da Universidade de S. Paulo.