| Quarenta e dois de profissão. Títulos de mestre, livre docente, doutor, professor titular. Uma carreira desenvolvida em prol da periodontia. E uma infinidade de participações em congressos e seminários, incluindo um nos Estados Unidos. Tudo parece um pouco comum, se não estivéssemos falando que a maioria das atividades foi desenvolvida em Florianópolis, Santa Catarina. O doutor Daltro Halla formou-se cirurgião-dentista pela Faculdade de Odontologia de Santa Catarina, em 1958. Ingressou no magistério em 1962, na qualidade de auxiliar de ensino na disciplina de Microbiologia, transferindo-se no ano seguinte para a disciplina de Histologia. Em 1965, realizou o curso de especialização em Periodontia, na Universidade de São Paulo. A partir de 1966 até a aposentadoria (1992) foi o responsável pela disciplina de Periodontia da Universidade Federal de Santa Catarina. Em 1985, realizou o curso em Periodontia Social em Illinois, Estados Unidos e logo em seguida presidiu o XIV Congresso Brasileiro de Periodontologia. De onde veio tanta inspiração? Do amor à profissão e da insistência em tentar resolver o problema da doença periodontal, como comenta nesta entrevista ao jornal Periodonto. Periodonto - Como foi o início de sua carreira profissional? Em Santa Catarina mesmo? Dr. Daltro - Iniciei minhas atividades profissionais em 1959, em Florianópolis. Como em todas as profissões, o início sempre é difícil, especialmente quando recuamos 40 anos. Comparativamente à hoje, a aquisição de equipamentos para montar um consultório era muito limitada em virtude da pequena oferta. Em função disto, era comum o recém-formado alugar um consultório, razão porque no início cheguei a atender em três endereços diferentes. Periodonto - A partir de quando o senhor decidiu se especializar em Periodontia? Dr. Daltro - Um dos motivos que me levou a dedicar-me à Periodontia foi a constatação de ver na prática diária a alta prevalência da doença periodontal. Na verdade, a disciplina de Periodontia era ministrada muito precariamente na maioria das faculdades. Isto ensejava uma limitação muito grande, em termos de conhecimento. Foi quando optei, em 1965, realizar um curso de especialização em Periodontia com o prezado amigo professor Lascala. Como eu, centenas de colegas assim também procederam. Estou certo de que Lascala, junto aos seus colaboradores, tem o grande mérito de serem os grandes propugnadores da Periodontia no Brasil. Como resultado, eu bem como dezenas de colegas que lá estudaram, cada um de seu Estado, criamos cursos de especialização nesta área, ajudando ainda mais a difundir os ensinamentos da Periodontia. Periodonto - Que tipos de dificuldades o senhor encontra em sua profissão em Santa Catarina? Dr. Daltro - A maior dificuldade encontrada no exercício profissional foi motivar os colegas no reconhecimento da importância da Periodontia na clínica diária e da necessidade de um diagnóstico precoce. Era frustrante vermos pacientes serem tratados por décadas, terem seus dentes restaurados, próteses serem confeccionadas, sem que os problemas periodontais fossem levados em consideração. Periodonto - Que tipos de vantagens o senhor encontra em sua profissão em Santa Catarina? É possível comparar com uma cidade como São Paulo, por exemplo? Dr. Daltro - O campo de atuação da Periodontia é muito abrangente. Ela se relaciona com todos os ramos da Odontologia, bem como exige um amplo conhecimento das disciplinas básicas. Aí reside seu fascínio e a grata satisfação que propicia. Além disso, dada a elevada prevalência e a grande mutilação que causa, propicia a recompensa em recuperar graves problemas, mitigado a dor e o sofrimento. Periodonto - Na experiência adquirida ao longo desses anos de atuação profissional, qual o conselho que o sr. daria para quem está estudando odontologia ou até para os futuros periodontistas? Dr. Daltro - Um dos aspectos muito importante na realização profissional de qualquer pessoa é gostar do que faz - amar sua profissão. A odontologia e em especial a Periodontia brinda, a quem a ela se dedica, muitas gratificações. Além disso, deve o profissional ser uma pessoa preocupada com sua atualização. É muito grande a quantidade de trabalhos científicos que a cada dia é publicado. Estas novas informações devem constituir a bússola que norteia nosso comportamento em nossos consultórios. Daí a necessidade de uma constante atualização, mesmo porque freqüentar um curso hoje não nos desobriga de acompanhar outro amanhã. Só assim poderá o profissional oferecer ao seu paciente um adequado e seguro entendimento. Periodonto - Em linhas gerais, como o sr. analisa hoje a situação das faculdades de odontologia? Dr. Daltro - A situação das faculdades de odontologia no Brasil pode ser analisada sob dois ângulos: aquelas entidades que mantêm um alto padrão de qualidade tanto pelas condições físicas quanto pela excelência de seu corpo docente e as outras. Dentre as primeiras, podemos citar inúmeras faculdades que cumprem o meritoso papel de formar profissionais competentes. Contudo, pela falta de um critério mais judicioso e ponderado, começa-se a mercantilizar o ensino de tal maneira que já vemos proliferar em faculdades sem a mínima capacitação. Os resultados desastrosos já se fazem sentir, tanto pela pletora do mercado quanto pelos maus serviços prestados à sociedade. Periodonto - Como o sr. analisa a periodontia no Brasil em relação aos outros países? Dr. Daltro - Como profissional dedicado ao magistério e à clínica particular, num período de mais de 40 anos, não considero pretencioso afirmar que a odontologia do Brasil é uma das melhores existentes. Basta que olhemos para nossa produção científica. Na verdade, são inumeráveis os trabalhos de investigação científica publicados pelos nossos investigadores, os quais primam também pela qualidade dos temas. No magistério, despontam educadores da mais alta renomada, com projeção internacional. Lamentavelmente, o governo com sua filosofia de desmontar nossas Universidades, não tem dado o devido respaldo, deixando-as à própria sorte, pois faltam-lhes o merecido apoio financeiro. Mantém-se ainda graças ao devotado espírito altruísta daqueles educadores que por amor a uma causa ainda não esmoreceram. Por outro lado, a qualificação do clínico pode ser medida pelo elevado número de jornadas, congressos e cursos de pós-graduação que se realizam por todo o País. É admirável a pujança de nossos congressos que chegam a reunir centenas de milhares de congressistas de uma única vez. Vejo com orgulho esta permanente preocupação do dentista brasileiro em manter-se constantemente atualizado. Periodonto - Com relação à manutenção e ao controle, o que o sr. tem a dizer? Dr. Daltro - A manutenção e controle constituem recursos extremamente importantes dentro da Periodontia. Na verdade, a prevenção deve ser a meta a ser perseguida. Com relação a este enfoque, acredito que uma filosofia preventiva entre a classe profissional (clínico geral) somente vingará quando houver remuneração que compense o tempo gasto para oferecer tais serviços. É imperioso dizer que o cidadão deverá também ser educado no sentido de valorizar os benefícios de tais medidas preventivas. Neste sentido, como sabemos, já começam a proliferar clínicas especializadas em prevenção, oferecendo serviços de diagnóstico precoce a fim de detectar a doença antes mesmo de seu início. Os benefícios bem podemos imaginar. Periodonto - Como o senhor avalia os instrumentos utilizados atualmente? Dr. Daltro - Acredito que com relação ao instrumental periodontal, não houve, ao longo destas últimas décadas muita evolução, a não ser na facilidade de aquisição. |