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Ponto de vista

No provão, a gramática sem prática
 
por Célio Nabuco Filho*
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De uns tempos para cá, os meios universitários estão sendo submetidos a um tipo especial de avaliação das faculdades em todo o País: o chamado Provão. Para as escolas, o Provão representa uma ameaça, já que está subjacente, na sua implantação, que o ensino superior no Brasil vai mal. Por isso, o Ministério da Educação encontrou no Provão a maneira de avaliar a qualidade do ensino praticado. Testar os alunos parece ser uma forma absolutamente imparcial de avaliar cada uma das escolas. Afinal, os alunos não estão comprometidos com a direção de suas faculdades. Sua independência parece mais que óbvia. E o próprio Provão estimulou esta independência, ao informar que, na eventualidade de fechamento de uma faculdade, os alunos desta escola poderão obter matrícula em outra unidade, na mesma cidades ou cidade próxima.

E assim se fez. O Provão serviria para apresentar uma avaliação efetiva e imparcial do ensino superior no Brasil.

Será verdade?

A resposta é não. Porque, pelo menos no campo de ensino da Odontologia, aconteceu um movimento inesperado: as faculdades deixaram de lado a prática, o trabalho na clínica odontológica, e passaram a ensinar exaustivamente a teoria. Com isso, preparavam melhor os seus alunos para enfrentar o Provão e conseguir boas notas. Estava concentrado o caminho da aprovação das faculdades...

O que acontece, então? Alunos de faculdades pouco equipadas, sem muitos recursos para a clínica prática, obtêm boas notas no Provão e a faculdade alardeia o resultado obtido. Incorpora o resultado ao seu marketing, para assim angariar novos alunos. Na avaliação de uma faculdade examinam se a formação científica proporcionada pela escola, seus projetos de pesquisa, as instalações da faculdade e a pós-graduação do corpo docente. Mas ocorre que tudo isto está posto de lado, em favor exclusivamente do Provão, que passa a ser o único critério de avaliação.

E os alunos destas faculdades que foram bem no Provão, como ficam? Cada vez mais enredados na teoria, não aprendem a manobrar instrumentos, têm poucas oportunidades de saber como prepará-los enfim, não dispõem da desejada familiaridade com a prática odontológica.

No século I a C., o tribuno romano Publilius Syrus já ensinava que "a prática é o melhor dos instrumentos". O que o provérbio latino confirmava com "a prática leva à perfeição". Brasileiramente, é comum dizer-se que vale mais a prática que a gramática...

Não pretendo, com essas observações, diminuir a importância do conhecimento teórico. Afinal, a ciência existe somente em função daquilo que foi levantado em estudos e pesquisas, da soma das avaliações, do acompanhamento dos casos. A reunião desses dados criou as normas, as doutrinas, as teses formadoras dos conceitos básicos de cada ciência.

Um pensador, Matthew Arnold (1822-1888), já dizia, com propriedade, que "entre o mundo das idéias e o mundo da prática os franceses suprimem um e os ingleses o outro, mas nenhum deles pode ser desprezado".

O que aqui se prega é justamente o equilíbrio entre a teoria e a prática, a sintonia de uma com a outra, o sincronismo dos conhecimentos advindos de cada vertente do conhecimento. É, ao mesmo tempo, um alerta para a relatividade de certas avaliações advindas do Provão. Nossa intenção é simplesmente a de levantar a questão, para se chegar à desejável harmonia entre a teoria e a prática odontológica. Dessa harmonia surgirão, certamente, profissionais perfeitamente preparados e aptos a desempenhar suas tarefas com plano de conhecimento do trabalho. Prático e teórico.


*Célio Nabuco Filho é professor assistente da Unip e colaborador do Periodonto

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