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Um
profissional realizado, com muita sorte, sólida experiência profissional,
construída ao longo de seus quase 57 anos de pioneirismo e prática
da periodontia. É considerado por muitos como o especialista da
área com mais anos de carreira e ainda em atividade. É assim que
podemos resumir rapidamente a atuação do professor doutor Antonio
Césio de Pádua Lima. Aos 82 anos, ele continua trabalhando, com
grande lucidez e determinação, todos os dias das 8h às 12h, em
seu consultório, em São Paulo, com a colaboração de sua secretária,
Santina Nascimento, que o assessora há 30 anos. E a tarde dedica-se
aos estudos.
Estudos? Com essa idade? "Sim, é muito importante nos manter atualizados.
As evoluções científicas são muito rápidas e existem publicações
em grande número. Por isso, aprecio o meio dia livre que sobra.
Seleciono os trabalhos de maior interesse prático e leio principalmente
os resumos iniciais que são muito bem-feitos, por exigência das
principais revistas científicas", comenta, todo animado. "Tenho
um bom ritmo de vida. À noite, me desligo de tudo e no dia seguinte
começo novamente." Nem mesmo os dois acidentes que sofreu, um
de cavalo e outro de carro, o tiraram de sua prática diária.
Dá muita importância à saúde, possivelmente porque sua mãe era
doentia. O pai, professor de Higiene e Biologia, em escola normal,
deu-lhe a orientação de medidas de preservação da saúde e com
ótima argumentação o fez evitar o cigarro e bebidas alcoólicas.
Nessa época, havia intensa campanha contra o alcoolismo e pregação
de medidas de higiene, como lavar as mãos antes das refeições,
por exemplo. O doutor Pádua Lima é um exemplo vivo da periodontia
brasileira. Começou a sua carreira em 1940, após ter se formado
como cirurgião dentista pela Faculdade de Odontologia da Universidade
de São Paulo. A periodontia entrou em sua vida dois anos depois,
quando conseguiu uma bolsa para estudar em Nova Iorque, Estados
Unidos, durante dois meses. Chegando à Universidade de Colúmbia,
escola pioneira desta especialidade da odontologia norte-americana,
num encontro informal com o diretor, estando presente o professor
Harold Leonard, substituindo o professor Hirschfeld, foi lhe perguntado
o quê pretendia estudar. Com toda a sua simplicidade, respondeu
que pretendia conhecer as mais recentes técnicas de dentadura.
"Não se usa mais dentadura", informou o professor Leonard. "Então,
como o senhor trata a piorréa? Faz gengivectomia?", perguntou
Pádua Lima. "Não se faz gengivectomia na piorréa." O que fazer
nessa situação? O professor sugeriu a ele estudar periodontia.
"Mas eu só tenho dois meses. Consigo aprender alguma coisa?" Sim,
respondeu o professor. E Pádua Lima teria, nos próximos meses,
um higienista dental o tempo todo, marcando pacientes pela manhã
e tarde para praticar raspagem dental e obter informações de outros
aspectos da periodontia, por meio de assistentes de cadeira, sempre
presentes.
Passados os dois meses, ele conseguiu uma outra bolsa de estudos.
Desta vez na Universidade de Michigan e, em seguida, da Universidade
da Pennsylvania. Durante nova bolsa na Temple University estudando
cirurgia, ficou interno na Pennsylvania Hospital, como Resident
Dental Surgeon. Dois anos após, quando voltou ao Brasil, montou
o seu consultório com ajuda dos pais. "Veja como eu tive e tenho
tido muita sorte: minha família era muita amiga do pai do professor
Ciro Silva, que tinha fundado a cadeira de radiologia na Faculdade
de Odontologia da Universidade de São Paulo. Era um dos dentistas
mais famosos aqui de São Paulo.
Naquele tempo não se conhecia a etiologia da doença periodontal,
e o tratamento consisitia na gengivectomia, sem raspagem radicular
adequada e sem tratamento de manutenção. A recorrência era rápida
e mais grave que inicialmente. O professor Ciro, que fazia cirurgia,
tinha casos nestas condições. Sabendo que eu havia aprendido periodontia
enviou-me seus pacientes, pertencentes à melhor sociedade de São
Paulo. Também tornei-me seu assistente da Universidade de São
Paulo e mais tarde livre docente de radiologia. Por sua influência
adotei o sistema de cobrar por hora. Acredito ser a melhor e mais
justa maneira de cobrança, principalmente em periodontia. Ao iniciarmos
o tratamento, nos defrontamos com muitas variáveis, como a capacidade
de reação orgânica do paciente e sua colaboração na freqüência
ao consultório, inclusive para tratamento de manutenção. A principal
incógnita é a capacidade de controle da placa bacteriana, essencial
para o bom resultado do tratamento."
E assim começou a sua bem-sucedida carreira profissional. Em 1956,
foi o presidente da 1a Semana de Prevenção da Periodontopata,
também a primeira no Brasil na Associação Paulista dos Cirurgiões
Dentistas (APCD). Nesta ocasião, foi estabelecida a Seção de Periodontia
da APCD, da qual foi o primeiro presidente, reeleito por 10 anos
consecutivos. Também fundou a cadeira de periodontia no Brasil
na Pontífica Universidade Católica de Campinas (Puccamp), em 1959,
ao lado dos professores Márcio Vieira Conde e Osvaldo Sigefredo
Roriz, permanecendo como professor-titular por 17 anos. É comum
ainda hoje o doutor Pádua Lima conversar e trocar idéias com seus
amigos periodontistas. Mas, infelizmente, não tem nenhum livro
publicado. Tem vários artigos e colaboração em dois livros: u
margentino e outro mais recente, de periodontia brasileiro. Confessa
que dedicou seu tempo ao trabalho e ao bem-estar da família. Porém,
imprimiu seus estudos e experiência na história da periodontia
brasileira, deixando vários seguidores. A seguir, mais detalhes
desta entrevista que, no mínimo, foi muito enriquecedora, tanto
pessoal quanto profissional.
Periodonto
- Na experiência adquirida ao longo desses quase 57
anos de atuação profissional, qual o conselho que o sr. daria
para quem está estudando odontologia ou até para os futuros periodontistas?
Dr. Pádua Lima -Primeiro,
fazer uma faculdade bem-feita, aproveitar ao máximo o tempo que
será dedicado aos estudos. Segundo, se atualizar continuamente
em revistas e cursos. Eu procura não perder qualquer curso. Mesmo
em um curso ruim se aprende algo ou ficamos contente com os próprios
conhecimentos. Em último caso, aprendemos a ter paciência em ouvir.
Periodonto - Além do encaminhamento
que o levou a estudar a periodontia, o que mais o incentivou a
continuar nesta especialidade?
Dr.
Pádua Lima - A
Periodontia é muito fascinante, porque você nota o benefício que
causa, em curto prazo, aos pacientes, eliminando infecções que
põem em risco a saúde sistêmica, que interferem com a estética
e o bem-estar, que pode produzir halitose e que leva à perda dos
dentes. As duas últimas situações podem ser dramáticas, psicológica
ou profissionalmente em artistas, advogados, vendedores ou em
outras profissões em que a estética, a dicção e o hálito sejam
especialmente importante. A periodontite tornou-se muito racional
desde que Waerhaug mostrou que a placa bacteriana é por si só
a única causa da doença periodontal. As demais são causas predisponentes
ou modificadoras da reação inflamatória. Portanto, no tratamento
da gengivite ou periodontite é essencial eliminar-se a placa bacteriana
e seus perpetuadores. A não eliminação da infecção e inflamação
significa que o dentista e/ou paciente estão falahndo. É um desafio
que me estimula continuamente a melhorar a técnica de raspagem.
Novas técnicas de controle da placa bacteriana foram desenvolvidas
nos meus 57 anos de periodontia.
Periodonto - O sr. procurou
outro tipo de especialidade para estudar?
Dr. Pádua Lima - Eu não pude
fazer especialidade pura quando iniciei a prática da periodontia
porque naquela ocasião não se sabia fazer prótese compatível com
o periodonto e não havia recursos que se têm atualmente. Oje,
dispomos de meios muito mais eficientes de controle da placa pelo
paciente. São as escovas interdentais, escovas unitufos, pincéis
de cerdas naturais para o controle da placa bacteriana subgengival
até 4 mm, se necessário, associado ao uso tópico de clorhexidine
a 2%. Também as resinas compostas com liberação de flúor permitem
reparo de margens incorretas de restaurações e obturações de cáries
secundárias, marginais. A fixação que requeria restaurações protéticas
complexa são hoje realizadas com simplicidade, utilizando-se canaletas
preenchidas com arame ortodôntico e resinas compostas.
Periodonto - O que faltou
para o sr. escrever um livro?
Dr. Pádua Lima - Seria necessário
interromper a atividade profissional e anos de trabalho em um
país em que não existe seguro velhice e segura saúde e no qual
eu tinha quatro filhos para cuidar. Confesso que me voltei para
a clínica porque é a minha vocação e também contribui para fazer
meu pé de meia.
Periodonto - O sr. tem pacientes
que atende há mais de 30 anos?
Dr. Pádua Lima - Sim, tenho
pacientes que atendo há mais de 40 anos. Raramente, perdem um
ou dois dentes ou necessitam de implantes.
Periodonto - De onde o sr.
tira tanta força de vontade, energia, com 82 anos ainda trabalhando?
Paixão pela profissão...
Dr. Pádua Lima - Por toda
a minha vida sempre fui muito métodico e tive muita determinação.
Tudo que eu quero acho que com um pouco de sorte eu acabo conseguindo.
Periodonto - Em linhas gerais,
como o sr. analisa hoje a situação das faculdades de odontologia?
Dr. Pádua Lima - Há presentemente
excesso de faculdades e com dificuldades de bons professores.
Seria desejável que houvesse folga financeira para contratar professores
tempo integral e fazendo carreira profissional.
Periodonto - Como o sr. analisa
a periodontia no Brasil em relação aos outros países?
Dr. Pádua Lima - É difícil
para mim estabelecer uma comparação. Entre nós tenho a impressão,
por meio do grande interesse e freqüência de cursos de periodontia
de que uma grande parcela de clínicos gerais fazem periodontia.
Periodonto - Com relação à
manutenção e controle, o que o sr. tem a dizer?
Dr. Pádua Lima - A melhor
maneira de se educar e motivar é por meio do tratamento conservador.
Em casos adiantados, são tratados poucos dentes em cada sessão.
Iniciando-se pelas regiões mais visíveis e graves o paciente observa,
em poucos dias, a cicatrização da bolsa periodontal, que será
atribuída ao árduo trabalho do periodontista e aos seus próprios
meticulosos cuidados de controle de placa. Assim, o paciente vai
começando a entender a filosofia do tratamento periodontal.
Periodonto - Como o sr. avalia
os instrumentos utilizados atualmente? Estão melhores que há 50
anos?
Dr. Pádua Lima - Não me parece
que os instrumentos atuais brasileiros sejam muito melhores que
os de 50 anos atrás. Entretanto, são muito úteis porque são facilmente
obtidos a preços razoáveis e suas pontas podem ser trocadas quando
gastas. Como a retenção do corte apresenta grande variabilidade,
o periodontista deve reclamar aos fabricantes e estimulá-los a
melhorar a qualidade.
*Colaborou
nesta entrevista o doutor Célio Nabuco Filho
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