Câncerbucal

Prevenção é o melhor remédio - por Cristiane Pinheiro

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Pessoas da faixa etária de 40 a 50 anos, do sexo masculino, cor branca e que têm o hábito de fumar e ingerir bebidas alcóolicas têm maior probabilidade de adquirir câncer bucal. Pelo menos é o que revela uma pesquisa desenvolvida por Silvio Carlos Coelho de Abreu, de Saõ Paulo, realizada no Instituto do Câncer Arnaldo Vieira de Carvalho, no período de fevereiro a dezembro de 1997. Foram pesquisados 57 pacientes registrados no Departamento de Estomatologia do Instituto, e a mostra envolveu as seguintes características: faixa etária, sexo, cor, hábitos e localização da lesão.
A região mais afetada, de acordo com o resultado da pesquisa, é o assoalho bucal (29,82%), seguido da língua (com 24,56%), rebordo alveolar inferior, palato, orofaringe e rebordo alveolar superior. Dados da Fundação Oncocentro de São Paulo, observados por Abreu, revelaram que, no período de 1976 a 1980, o Câncer totalizou 8% dos casos de tumores malignos no sexo masculino e 2% no sexo feminino. Atualmente, cerca de 10% de todos os tumores malignos do organismo ocorrem na boca. Estima-se que cerca de 7% da população mundial esteja acometida, e o Brasil está em quarto lugar em incidência no mundo, de acordo com informações do professor titular da disciplina de diagnóstico bucal da Faculdade de Odontologia da Universidade Cidade de São Paulo (Unicid), Silvio Boraks.
O tipo mais freqüente, de acordo com Boraks, é o histológico, conhecido como Carcinoma espinocelular, com cerca de 95% dos casos. Os 5% restantes correspondem a sarcomas, neoplasias metastáticas, linfomas e leucemias e outras doenças raras.
O Carcinoma espinocelular é úlcero-vegetante de bordas elevadas, crateriforme e com base endurecida, porém, segundo Boraks, tem melhor prognóstico do que o de asoalho bucal. "O tratamento é o cirúrgico, e como terapia auxiliar pode-se utilizar radioterapia e quimioterapia", observa Boraks. "A escolha desse tema justifica-se como um alerta, principalmente ao cirurgião-dentista, e a todos os profissionais de saúde no sentido de dar total atenção ao examinar um paciente em sua conduta inicial, vendo-o como um todo e não como especialidades isoladas, não interligadas", ressalta Abreu, comentando ainda que com esta atitude o cirurgião poderá detectar, ao menor sinal, alterações sistemáticas em estágios iniciais ou mesmo um câncer, diferenciamendo o prognótico.
Boraks também chama a atenção para este fato. "Às vezes, o paciente acha que é uma simples afta. Acontece que a afta tem por característica básica a dor, e o tumor não dói. Ambos têm o mesmo aspecto no início, mas enquanto a afta desaparece em uma semana, o tumor começa como uma ferida, um ponto branco, que vai se infiltrando e enraizando, atingindo até alguma terminação nervosa", alerta Boraks.
Um outro fator trata-se do trauma mecânico, ou seja, dentes ou próteses que machucam e acabam por irritar a região da gengiva. "Isto pode criar uma placa branca, que - se não tratada há tempo - pode se transformar em câncer, caso também a pessoa tenha as células características da doença." O próximo passo, segundo Boraks, é a formação de um nódulo, que cresce rapidamente. Ou mesmo um sangramento na boca, sem causa aparente, com rompimento de alguns vasos sangüíneos. Em casos extremos, o paciente não consegue nem mover a língua.
Além das células características, da pessoa ser fumante e ingerir bebidas alcóolicas. Boraks comenta que os tumores também podem surgir por influência do meio ambiente. Como por exemplo, a alta concentração de monóxido de carbono, soltado pelos carros. "Ou como acontece em regiões do Nordeste, onde o clima é muito quente e por isso há maior incidência de câncer de lábio, ou no Rio Grande do Sul, onde se destaca o câncer no esôfago, devido ao grande uso de chimarrão." Cabe, então, ao dentista orientar o paciente com relação a estes aspectos.

 

Tratamento preventivo

De acordo com dados do Instituto Nacional de Câncer do Ministério da Saúde, cerca de 65% dos pacientes portadores de câncer bucal procuram o tratamento com lesões já avançadas, sendo que 10% dos tumores malignos do corpo todo localizam-se na boca. Do total de óitos por câncer registrados no ano passado (107.950), segundo dados levantados pelo diretor do departamento de estomatologia do Centro de Tratamento e Pesquisa do Hospital do Câncer, Luciano Lauria Dib, espera-se cerca de 8.200 novos casos de câncer de boca, ou seja, uma incidência de 8,2 casos por 100 mil habitantes. Nos Estados Unidos, de um total de um milhão de registros de câncer, 31 mil serão o da boca e orofaringe. Como mudar esta questão?
O papel do dentista vai muito além de tratar cáries, na opinião de vários especialistas. É muito importante que o dentista realize um exame minucioso cada vez que o paciente vai ao seu consultório, para detectar as lesões passíveis de se transformar em câncer (cancerizáveis ou pré-cancerosas). "O câncer tem cura, desde que diagnosticado com antecedência", reforça Boraks. E ele vai mais longe: "o dentista tem por obrigação acompanhar o paciente antes, durante e após o tratamento, principalmente porque em casos mais graves, em que é necessário a utilização de quimioterapia ou radioterapia, o paciente fica com seu sistema imunológico debilitado. Então, o dentista deve estar atento com a possibilidade do surgimento de feridas, por exemplo".
Também o auto-exame é muito importante, na opinião de Boraks. "A pessoa deve observar e palpar as estruturas da boca à procura de qualquer alteração e assim se dirigir ao dentista que irá avaliar, por meio de exame minucioso ou complementares- como biópsia ou citologia esfoliativa de Papanicolau, se necessário- e assim detectar uma lesão pré-cancerosa ou um tumor maligno ainda em seu estágio inicial".
Ou seja, a prevenção é o melhor remédio para que a pessoa não venha a desenvolver o câncer, na opinião de Boraks e do diretor do departamento de estomalogia do Centro de Tratamento e Pesquisa do Hospital do Câncer, Luciano Lauria Dib.

 

O auto-exame

O chefe do departamento de odontologia do Instituto do Câncer Arnaldo Vieira de Carvalho,doutor Silvio Boraks,recomenda:

* Comece observando a pele da face diante do espelho e verifique a existência de alguma ferida que não sarou depois de 15 dias.


* Palpe o pescoço, comparando o lado esquerdo com o lado direito á procura de caroços, principalmente aqueles endurecidos que não doem e que estejam presentes apenas de lado.


* Abra a boca e puxe o lábio inferior para baixo: seu aspecto deve ser liso, róseo e brilhante. Procure feridas e manchas brancas.


* Olhe as bochechas dos dois lados e aproveite para examinar as gengivas de cima e de baixo.


* Abra mais um pouco a boca e examine o céu da boca. Fale ééééé bem longo e observe o fundo da garganta.


*Levante a língua e verifique se não há feridas ou manchas brancas. Olhe nas bordas e em baixo da língua. Se necessário,use o cabo de uma colher para afastar a língua de um lado e do outro.
*Ponha a língua para fora o máximo que você puder. Observe se não há dificuldade na movimentação ou se existe algum sangramento.

 


Os primeiros sinais

 

* Feridas que não cicatrizam com os recursos corriqueiros

* Placas brancas que não se destacam

* Manchas avermelhadas sem sinais de inflamação

* Manchas enegrecidas

* Endurecimento

* Caroços de crescimento rápido e indolor

* Sangramento bucal sem causa aparente

* Mobilidade dental sem causa aparente

* Dificuldade de mover a língua

* Sensação de adormecimento ou formigamento.

 

O papel do cirurgião-dentista na luta contra o câncer

 

* Realizar exame minucioso nos tecidos moles e duros da boca

* eliminar irritantes bucais crônicos, como arestas ou bordas cortantes de dentes e de próteses, excessos ou falta de material de restauração e próteses mal adaptadas.

* Reconhecer e controlar as lesões cancerizáveis.

* Motivar o paciente ao abandono ou diminuição do fumo e do álcool

* Realizar citologia esfoliativa ou biópsia sempre que houver suspeita de câncer.